DEGUSTAÇAO - LIVRO FLORES DO CEDRON - EDITORA LACHÂTRE / PRELO

DEGUSTAÇÃO

LIVRO FLORES DO CEDRON
 Autora Helaine Coutinho Sabbadini

EDITORA DO INSTITUTO LACHÂTRE

Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas.
Deus é amor.[1]

Os Espíritos Superiores vos amam como os bons pais amam seus filhos; eles vos têm piedade, cuidam de vossos dias e buscam vos afastar de todo mal, como uma mãe cerca o filho de todos os cuidados mais delicados, de todas as atenções necessárias à sua fragilidade.[2]


Dois mil anos da passagem do mestre Jesus pelos horizontes terrenos e parece que muito pouco há mudado. O amor e a superior abrangência espiritual, expressos Nele, certamente não distinguem gêneros, contudo, o perfil feminino no presente trabalho está a promulgar todas as almas sofridas e incompreendidas, eivadas em seus sagrados direitos nas sociedades desiguais de todos os tempos.

O Cristo vem ao encontro de todos nós, despertando-nos, conclamando-nos, estimulando-nos... Caminha ainda nos mesmos pisos de nossas lutas atuais ensinando-nos amorosamente a brevidade de todas as posições e condições, contudo, como antes, ainda se depara com as coletividades do mundo plenas dos remotos fariseus.

Ainda há irmãos embotados na interpretação rígida das “leis religiosas”, a partir disso segregam, separam, exterminam seus semelhantes. Aplicam às mulheres, ironicamente como há séculos, o shariah[3] religioso a representar o látego da rígida jurisprudência humana. Jesus se aqui estivesse, em pessoa, não encontraria – em determinados países – panorama muito diferente de dois mil anos passados.

O Libertador de almas, na feição de Seu Evangelho, vem para os simples, para os esquecidos, para os compungidos e para os cansados das dores vincadas nos próprios erros, enquanto, massas de almas ainda fazem sofrer na promulgação de guerras e morticínios em pleno século XXI. Mães ainda choram a perda de seus filhinhos, outros, entre desespero e desconsolo, sepultam suas famílias imersos no caos das guerras fratricidas, sem a chance de um único clamor por piedade. 

Nosso singelo discurso não pretende o tendencionismo, do ponto de vista dos direitos civis das mulheres de nosso tempo, senão, estaríamos desfraldando bandeiras pelas jungidas, nos países islâmicos, por exemplo, ao crivo de um baal[4] (que resiste ao tempo e as idades) com direitos sobre suas vidas e mortes. Entretanto, trazemos a alma em súplicas pela própria maior compreensão e amor, iluminação e evangelização, enquanto escravizadores de semelhantes e promotores de sofrimentos.

Na condição de filhos tendo Deus como mãe, superlativa energia maternal de amor, voltamo-nos humildemente para o Criador no sentido de haurirmos condições de transubstanciarmos os próprios quadros de expiações, que nos escravizam há séculos, num amanhã mais ditoso com firme roteiro nas virtudes feminis da doçura, da brandura, do amparo e da proteção, da sensibilidade e do amor.
Helaine Coutinho Sabbadini
Muriaé, em 21 de Março de 2017


O EVANGELHO DE JESUS

A alma renovada em Cristo consegue afirmar, com todo alento, como o fez o arauto do Evangelho, Paulo de Tarso: “Não sou eu mais quem vive, é Jesus quem vive em mim.”[1] Existe, por ventura, maior intimidade com o Cristo do que a deste que assim afirmou?

O Evangelho não é somente um conjunto de anotações sublimes, nem a mais preciosa cartilha de conduta ético-moral e espiritual entregue ao gênero humano, é muito mais do que isso, bastando somente que os olhos que O buscam não prossigam ignorando o que há de mais valioso nele; o Cristo vivo, que continua sendo ― em muitas instâncias ― um desconhecido em meio à erudição e à vaidade humanas.
Jesus Cristo e o seu Evangelho jamais serão ultrapassados, todos os séculos aclamarão a superioridade dos ditames restauradores de almas; todos os lábios divulgarão, pela eternidade, que nunca houve entre os viandantes das paragens terrenas um maior do que o Cristo. Ele é o absoluto a reinar sobre todos os reis, impérios e panteões terrenos, tornando-se a pedra angular para a evolução moral-espiritual do gênero humano e qualquer potestade, nos confins do planeta ou do espaço, que ousar arrancar o Evangelho da terra não o fará sem abalar todos os fundamentos, todas as vigas, que sustêm o seu progresso espiritual. E quem arrogará possuir tamanha eficácia?
“Porque como o relâmpago se abre no Oriente e brilha até o Ocidente, assim também será a vinda do Filho do Homem”[2]. Um raio consumindo o mundo um trovão abalando a terra e o céu, dimanam Dele; mas Ele está calmo: “tu és meu filho bem amado, meu repouso, minha calma” diz o espírito-mãe.
Nós não o vemos ainda com os nossos olhos físicos, mas já o sentimos com a alma; o milagre dos milagres, o eterno e calmo relâmpago, eis o seu semblante, eis o semblante do Cristo vivo, eis o semblante do Evangelho.

A NOIVA DE JERUSALÉM

Existem pensamentos secretos e menos felizes em infinitas mentes nas lutas por disciplina espiritual, que, se desvelados, fariam envergonhar qualquer um. Que tribulação, que enorme padecimento o da noiva de Jerusalém pela exposição de sua fragilidade por uma turba, certamente, muito mais leviana do que a julgavam. 
Quando defrontarmos no mundo situações desafiadoras, de afrontas injustas ao nosso caráter e formos impedidos de nos justificar prontamente, como esta noiva, compreendamos que ainda necessitamos do aprendizado da humildade e da paciência, pois todos nos inserimos no processo reeducativo de almas nos caminhos das reencarnações. “No mundo tereis tribulações, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”[1]. Todos nós estamos capacitados a suplantar os limites do próprio ser, deixando que nasçam a esperança e a fé indispensáveis para o cumprimento dos precípuos deveres na Terra.

JOANA, ESPOSA DE CUZA

Examinando as anotações do célebre historiador romano Publius Gaius Cornelius Tacitus[1] encontramos a descrição de uma das formas mais terríveis de execução dos condenados e cristãos, ao tempo do Imperador Nero[2], e por suas ordens.
Os seguidores de Jesus eram amarrados a um poste e besuntados fartamente de piche, em seguida ateavam fogo nesses ‘postes humanos’ que enfeitavam os espaços ajardinados da residência palaciana do imperador, cuja demência já era notória. Narra-nos Tácito que as tochas humanas flanqueavam as vias da Domus Aurea[3] na elevação do monte Aventino para os passeios noturnos de Nero e que ao tempo de seu governo foram executados aproximadamente trezentos mil cristãos.
            Em fins do mês de agosto do ano 68, numa dessas terríveis matanças, dentre quinhentos prisioneiros fadados ao martírio, estava uma nobre dama de Cafarnaum, ostentando avançada idade. A senhora fora detentora de muitas posses e tivera a seus serviços inúmeras criadas, que a serviram com extrema dedicação no passado. Quando jovem desfrutara de enorme privilégio social, pois consorciada a um destacado funcionário de Herodes Ântipas, era ele o intendente Cuza. A senhora que àquele doloroso momento do ano 68 já trazia os cabelos encanecidos, a tez encarquilhada e o olhar cansado fora uma das mulheres mais altamente colocadas e respeitáveis na sociedade de Cafarnaum, nas cercanias do distante Mar da Galiléia; — Joana de Cuza era o seu nome.
            Quando jovem mulher fora atraída pelas energias superiores das palavras de Jesus, passando a ouvi-lo constantemente às margens do lago Tiberíades. Revela-nos o espírito Humberto de Campos, pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier, que a dama denotava grande nobreza de caráter trajando-se de forma simples, de modo a não atrair a atenção das pessoas pobres e modestas, para si. Tudo o que ela desejava era sorver a água viva da qual o Mestre falava. A alma de Joana era um oceano de tristezas e infinitos dissabores. Possuidora de fé robusta amargurava-se pela posição que o esposo ostentava, de favorecimentos políticos e vaidades.
            O Intendente de Herodes brindado pela constante camaradagem dos representantes do Império sorvia grande prestígio social, contudo, diferente da esposa, vacilava em sua fé: ora devotava-se às liturgias no Templo de Jerusalém, ora oferecia sacrifícios às deidades do panteão romano, em troca de favorecimentos pessoais e políticos. 
            Contrariamente Joana nutria-se de verdadeira fé, sobretudo, depois de conhecer e ouvir Jesus. Certa feita procurou-O na casa de Simão para abrir as comportas do coração amargurado pelos tantos dissabores domésticos, de modo a confessar ao Mestre as suas grandes pelejas e frustrações ao tentar falar ao marido sobre a sua nova crença... Revelara ao Mestre que malograra sempre em seu mais sagrado intento, Cuza em nada alterara o seu comportamento.




[1] Publius Gaius Cornelius Tacitus ou Tácito (55 – 120) – historiador, orador e político romano.
[2] Nero - Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus; Anzio, 15 de novembro de 37 d.C. — Roma, 9 de junho de 68. Nero governou de 13 de outubro de 54 até sua morte em 9 de junho de 68.
[3] Casa de Ouro ou Casa Dourada
[1] João, 16:33 
[1] Paulo, Gálatas, 2:20
[2] Mateus, 24:27




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